Carlos Marques de Almeida - Eléctrico chamado Orçamento

Segunda-feira, Outubro 7, 2024 - 10:54
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Eco

A negociação política é a única forma de concretizar o Orçamento a benefício da nação. A alternativa é a mentirosa fantasia do progresso.

Não existem negociações para o Orçamento. Pior ainda. O processo de contactos é um dispositivo político para iludir responsabilidades. Parece que conversam, mas usam linguagens diferentes. Parece que apresentam propostas, mas escondem-se atrás de falsos princípios políticos. Ninguém está interessado no país nem nos portugueses nem no Orçamento. Tudo se resume ao oportunismo das medidas dilatórias para declarar vitória política por indecente e má figura. Nos comentários circulam as acusações de “infantilidade”. Mas conceder dignidade política à infantilidade é uma forma de legitimar a infantilidade e de justificar o impasse. A infantilidade é uma forma de incompetência política. A falsa infantilidade é uma forma de cinismo político. Se Portugal está refém de políticos infantis então a democracia portuguesa é superficial e uma ilusão perigosa. Goste-se ou não, a superior incompetência da política e dos políticos é um insulto ao país. Adulta ou infantil.

O IRC e o IRS Jovem são abcessos de fixação que servem para justificar o mais medíocre exercício político sobre o Orçamento. Enquanto se discutem as famosas “linhas vermelhas” como sintoma de integridade política, esquece-se que a linha vermelha é o símbolo internacional para os funcionários das organizações que operam em zonas de catástrofe e de ajuda humanitária. O Orçamento em Portugal aproxima-se de uma zona de catástrofe e os políticos competentes devem ter em linha de conta esta designação alternativa da linha vermelha. Mas não. Linha vermelha é sintoma de pureza ideológica. A linha vermelha vem substituir a complexidade estrutural da política por uma espécie de mapa virtual do conforto e da beleza – o conforto de quem não assume responsabilidades e a beleza de quem se assume como incompetente. Os portugueses devem estar atentos ao álibi das linhas vermelhas.

Nota: pode ler este conteúdo na íntegra na edição online do ECO de 30 de setembro 2024.