Escolhido pelo Presidente da República para presidir às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a 10 de junho, Miguel Monjardino, professor do IEP, conta como foi esta experiência e que impacto pode ter nos estudantes da Católica.
“Recebi o convite como uma boa surpresa e encarei-o como uma oportunidade de refletir sobre Portugal e a sua História na época em que vivemos”. As palavras são de Miguel Monjardino, professor do Instituto de Estudos Políticos, que foi designado pelo Presidente da República para presidir às Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a 10 de junho, este ano celebrado na ilha Terceira, Açores, e no Luxemburgo.
Residente da Terceira há 63 anos, Miguel Monjardino é professor convidado de Geopolítica e Geoestratégia no IEP desde 2001. Quando questionado sobre como incute a Portugalidade nas suas aulas, afirma: “Dar aulas na Católica nestes últimos 25 anos foi uma das aventuras mais extraordinárias da minha vida, uma experiência absolutamente incrível. Tentei sempre conversar com os alunos do ponto de vista de lhes transmitir uma perspetiva longa do tempo histórico, da importância da geografia física. A política não é uma atividade meramente racional e há muito de humano e de imperfeição humana na política. Numa época tão tecnológica como a nossa, em que o algoritmo decide cada vez mais coisas, é muito importante que a educação universitária nos leve de volta à nossa humanidade, mas também à realidade física do nosso mundo e à incrível beleza do mundo natural, que é tão precioso. E é por isso que acho que é tão oportuna a publicação da encíclica do Papa Leão XIV.”
Discurso do Presidente da Comissão organizadora do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Miguel Monjardino:
É com alegria que participo convosco nesta festa de Portugal que hoje celebramos na cidade do Luxemburgo por ocasião das Comemorações do Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.
Gostaria de vos falar de três coisas. A primeira é sobre Portugal e o Luxemburgo. Ao longo seis décadas, este país tem sido uma fonte de esperança para milhares de portugueses que aqui encontraram um país que os acolheu. Relembro Heroína de Pina e o seu marido Carlos Pina, que em 1965 organizaram a primeira celebração do 10 de Junho no Luxemburgo.
Ao olhar para esta sala, com tantos portugueses, cidadãos luxemburgueses descendentes de portugueses, Vossa Alteza Real, Grão-Duque do Luxemburgo, o Presidente da República de Portugal, o Presidente da Câmara dos Deputados do Luxemburgo e o Primeiro-Ministro de Portugal, vemos a longa viagem de dois países através de uma época da história europeia.
Como o Grão-Duque Guillaume afirmou ontem no seu discurso, a comunidade portuguesa ocupa agora um “lugar essencial” na vida do Luxemburgo. O trabalho, o talento e o investimento dos portugueses também contribui para o dinamismo, a diversidade e a inovação na sociedade e economia do Luxemburgo. Mas também há mais interesse, atenção e conhecimento dos decisores luxemburgueses em relação a Portugal. Alguns políticos são adeptos de clubes de futebol portugueses. Até do Sporting Clube de Portugal, imagine-se.
A segunda coisa de que vos gostaria falar é a importância da Educação numa democracia liberal. No nosso dia nacional celebramos Camões, um poeta prodigioso. No final de Os Lusíadas, ele escreveu: “Nem me falta na vida honesto estudo”. Vale a pena repetir estas palavras aqui: “Nem me falta na vida honesto estudo.”
Camões leu as crónicas históricas nacionais e escritores portugueses, castelhanos e italianos. Em Portugal e nas suas viagens na Ásia, leu e conversou com alguns dos grandes cientistas do seu tempo: Duarte Pacheco Pereira, Tomé Pires e Garcia da Orta.
Esta educação deu-lhe um profundo conhecimento da língua portuguesa que ele explorou até ao limite do possível. Para os Portugueses, o domínio da nossa língua, e das línguas das sociedades em que escolheram viver, é crucial para o seu presente e futuro. Também é importante para a nossa Cultura.
O génio poético, as suas viagens e conhecimento práctico, deram a Camões uma grande sensibilidade histórica. Ele sabia que vivia numa época de mudança em Portugal, na Europa e no Oriente.
Esta é a terceira coisa de que vos gostaria falar. O Luxemburgo tem sido importante na metódica construção da União Europeia que conhecemos. Jean-Baptiste Nicolas Robert Schuman nasceu aqui nesta cidade. Há 76 anos, a Declaração Schuman propôs a fundação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, a primeira instituição supranacional europeia.
Há 46 anos, o Acordo de Schenghen acabou por levar à livre circulação de pessoas em alguns países europeus. Com o tempo, passou a fazer parte da legislação da União Europeia. Há 40 anos, Portugal tornou-se membro da Comunidade Económica Europeia.
Aqui estão instituições como o Tribunal de Justiça da União Europeia, o Banco Europeu de Investimento, o Mecanismo Europeu de Estabilidade e, por exemplo, a Parceria Europeia para a Computação de Alto Desempenho.
Desde o início da década, vivemos a Grande Ruptura, uma nova época cujos contornos ainda não compreendemos bem. Mas, tal como Camões há muitos anos, sentimo-la todos os dias. Aqui no Luxemburgo. Em Portugal também.
Esta mudança histórica terá profundas consequências na Segurança e Defesa, Agricultura, Ciência, Indústria, Energia e Finanças de todos os países europeus. Todos. Juntos, vamos ter de repensar muitas coisas sobre a NATO e a União Europeia nos próximos anos.
Para nós, a Europa é democracia, estado de Direito, valores políticos, decência na vida pública e a defesa dos interesses permanentes dos países do Velho Continente.
Mas temos de reconhecer que para defendermos esta Europa, necessitaremos de gerar poder no continente europeu e no Atlântico. Poder para nos defendermos. Poder para persuadirmos. Finalmente, poder para dissuadir. Como o faremos? Esta não é altura para alimentarmos ilusões.
É tempo de nos prepararmos devidamente, e com confiança em relação ao futuro, para este facto.
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